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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Pensamentos profundos de Dona Mindinho


Tenho para mim que as relações entre as pessoas padecem exactamente do mesmo problema de que se ressente o comércio: andamos a importar muito produto chinês e a preterir o produto nacional.
Desculpamos a falta de qualidade com o baixo preço. Anda aí muita gente a engolir elefantes por alguém que conheceu na véspera e incapaz de relevar uma falhita de quem já lhe limpou o rabiosque.
Menos produtos baratos e cheios de defeitos, mais gente que realmente gosta de nós!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Dona Mindinho responde

"Querida Dona Mindinho, como devo tratar a minha namorada: uma lady ou uma louca?" Marco Paulo, 25 anos.

Marco, minha boa alminha, a mulher quer que o homem a trate como uma princesa, mas que não se intimide diante da mulher."

Dona Mindinho responde

"Querida Dona Mindinho, quero saber do que é que as mulheres gostam." Jorge, na casa dos 30.

Jorge, minha boa alminha, as mulheres gostam de homens que não façam como as marcas brancas que copiam o produto, pouco investem na embalagem, servem uma coisa com sabor a outra.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Contacto imediato de 3º grau com o espelho

Dona Mindinho concebeu-se em pensamentos de cabeça inadaptada a um mundo a preto e branco. Havia de surgir uma criatura que vivesse numa paleta mais completa, de preferência com mais dias em verde-limão do que cinzento-rato.
Aquela mulher adulta que a inventou nunca quis, nas horas de Mindinisse, ser um Peter Pan de unha vermelha e vestido, nem a avózinha meiga que cheira sempre a creme hidratante misturado com bolinho quente. Quis ser mais, não ter idade, ser plena, ou quase.
Dona Mindinho criou-se mesmo antes de nascer. Já conhecia o mundo, o mundo jamais a conheceu.
Escolheu o Dia dos Enganos para surgir. Passou de lado num espelho e sentiu-se corar. Uma paixão nascia dentro do peito. Aquela mulher do outro lado que sorria com deliciosa malícia era mesmo o que ela queria ser. Parecia-se tanto com ela, no entanto era mais firme, mais mulher, mais isto, mais aquilo. Ou talvez não. Aquela mulher só tinha um brilho nos olhos diferente. Conheceu-se assim, reconheceu aquele brilho como sendo o seu de há uns anos. O desmazelo, as derrotas e não conquistas levaram-no e já todos esperavam dela um olhar baço e que atende aos desejos e vontades de todos.
Em segredo, diante daquele espelho meio turvo das lágrimas por se sentir viva, fez nascer Dona Mindinho: uma mulher apaixonada por si e pela vida, nas horas vagas, uma heroína com TPM.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Dona Mindinho

Quando se deu o acontecimento, a vila não estava preparada para o que se seguiu. Os dias cinzentos não podiam continuar iguais após a curiosa descoberta.
Dona Mindinho desvivera. Esta desistência não é estranha em si, mas por si.
Senhora com mais de 90 anos e desistira agora? Algo sinistro se passou.

Dona Mindinho fora registada e até baptizada com nome de pessoa. Viveu apessoada até aos 31 anos, idade em que resolveu baptizar-se na banheira de hidromassagem da casa onde vivia.
Porque escolheu ser Mindinho, Dona Mindinho nunca ninguém soube. Na verdade, nunca ninguém soube que se reregistara. Acreditavam que nem sempre respondia pelo nome que o pai lhe dera por surdez, coisa que vinha dos tempos de infância.
Um dia entre soluços de grande tristeza decidiu afogar o seu nome junto com a sua história.

Não escolheu levar para essa vida além vida, porém levou-os também. Os seus olhos castanhos de auréola cinzenta. No entanto reformulou a capacidade de ver.
Mudou as roupas, levantou as pestanas, que lhe turvavam a vista, escolheu novo penteado.
Assim nasceu Mindinho, Dona Mindinho - faça o favor.